Estou muito feliz e aliviada, pois hoje
aconteceu o "milagre" que eu estava esperando. Tudo começou
quando eu descobri aos 8 anos de idade que tinha uma grave
doença, na verdade não foi só isso que eu
descobri.
Eu vivia doente, ia todo mês ao médico fazia um monte
de exames chatos (como se existisse algum exame legal).Além
de ter que tomar remédios todo santo dia sem nem saber pra
que servia. Nos dias que eu não agüentava mais todos
aquele remédios me recusava e perguntava pra que aquilo
tudo, mas era sempre a mesma coisa, diziam que eram para o meu bem,
explicava que eu tinha a saúde frágil e que se Deus
quisesse tudo ia acabar, na centésima vez que ouvi isso
descobri que deus não queria, mas tudo isso tinha seu lado
bom, muitas vezes quando eu me recusava pra valer e não
tomava os remédios, o único jeito era aquela famosa
chantagem:
_ se você tomar o remédio
ganha um chocolate.
_três
_dois
_tá bom!
Então parei de me incomodar
tanto, afinal pra não comer tantas besteiras ganhei muitos
brinquedos com isso. Principalmente nas minhas épocas de
piora, quando eu ia parar no hospital e tudo mais, mas ai eu nem
ligava pra os brinquedos. Estava farta de tudo aquilo.
Ao longo do tempo fui percebendo que todos me escondiam alguma
coisa, mas deixei pra lá. Até que um dia vi minha
mãe dando uma bronca em Mary (a mulher que ajudava lá
em casa e cuidava de mim desde que eu nasci) porque ela tinha
deixado a caixa de remédios em um lugar fácil, o que
foi bem estranho, pois minha mãe quase nunca brigava com
Mary, ainda mais por uma besteira daquela, eu já era
grandinha sabia que não era nem pra tocar na caixa de
remédios, mas quando fui vendo que nunca me deixavam ver os
nomes dos remédios que me davam, a curiosidade deletou essa
regra da minha mente. Então quando tive a primeira
oportunidade, e eu consegui ficar acordada até tarde pra
esperar todo mundo dormir fui e peguei a caixa, e logo reconheci os
remédios, eram caixas, umas com o nome vitamina c e do resto
do alfabeto, e a outra com um nome bem estranho: Tríplice,
pois é, de nada tinha adiantado, eu nem sabia pra que servia
aquele remédio de nome estranho mesmo. Nem pra que tanta
vitamina, mas o que me deixou curiosa mesmo foi o tríplice,
me perguntava o tempo todo pra que servia, e o não adiantava
perguntar a ninguém da minha casa, porque eu já havia
perguntado e todos diziam que era para meu bem, pra eu ficar forte
e assim vai, mas era impossível, com a quantidade de
remédios que eu tomava eu devia ser mais forte que o super
homem e não adoecer nunca mais, no entanto acontecia o
contrário.
Então no outro dia quando fui a escola perguntei minha
professora de ciências pra que servia aquele remédio,
e ela perguntou surpresa:
_onde você viu esse
remédio?
_hummm...(que mulher mais curiosa, um
pensamento que não pude evitar). Eu assisti um filme em que
a mulher tinha que tomar esse remédio todo dia, é
só curiosidade. Pra que serve?
_O tríplice é um
remédio específico para portadores de HIV, essa
doença deixa a imunidade do seu portador muito baixa, por
isso têm que tomar esses remédios constantemente, o
tríplice é só um deles, que servem pra
aumentar a imunidade...
Eu não conseguia nem raciocinar
direito, mas me lembrei de uma propaganda na tv que falava sobre,
de repente minha mente tava um caos total...E falei:
_HIV?Aids?Aquela doença que
não tem cura?!
_É infelizmente...
"NÃO TEM CURA" era só
nisso que minha mente confusa pensava...Todos os dias eu ouvia
promessas, que tudo ia passar, que um dia ia acabar...E era
mentira?
_Como não tem cura?É
claro que tem...Você não sabe de nada... É
mentira...Você está mentindo!
Corri para o banheiro e caí num
choro infinito, mas não deu nem cinco minutos pra professora
ir me procurar apavorada me perguntando aos berros o que havia
acontecido, e como eu não parava de chorar de jeito nenhum,
ela me levou a diretoria onde ligaram para os meus pais. Quanto
mais eu chorava mais a professora se descabelava e mais a diretora
perguntava a professora o que tinha acontecido, só que a
coitada tava tão nervosa que nem conseguia explicar direito,
mesmo por que ela nem sabia. Coitada, mas eu tenho que confessar
que toda aquela cena me deu uma certa vontade de rir, o apelido da
professora era macaca louca, pois era igualzinha a uma e estava na
minha frente, fazendo de tudo pra eu parar de chorar ou pelo menos
contar o que houve, mas eu só conseguia chorar. Passado uns
trinta minutos, tudo estava um pouco mais calmo, inclusive eu que
eu que estava ficando sem forças, chega minha mãe na
sala da diretoria nas carreiras, me abraça e
pergunta:
_o que aconteceu?
_não sei, ela veio me perguntar
sobre um remédio e quando eu falei, ela ficou assim,
respondeu a professora apavorada
novamente.
_por que mentiu pra mim?
_do que está falando?
_por que não me disse que essas
doenças nunca vão parar?Que vocês nunca
vão parar de me entupir com esses remédios?Que eu
nunca vou me curar?
Nesse momento a diretora quase teve um
infarto e professora virou uma macaca com olhos
de coruja.
_Bárbara filha... Temos que
conversar, vamos pra casa.
Minha mãe ligou para o meu pai no caminho avisando que
estávamos indo pra casa. Quando chegamos, ela já
estava e foi logo perguntando:
_o que aconteceu?Você tá
bem?
_ela já sabe. Disse minha
mãe enquanto tirava minha mochila das minhas
costas.
De repente surgiu outra pergunta na minha
mente.
_Como eu peguei isso?Eu não
entendo?Por que você não tem?
Eu já tinha ouvido falar no HIV, não era totalmente
alienada, sabia que era uma doença que se transmitia
sexualmente, o que aumentou a minha dúvida, eu era só
uma criança. Meus pais se olharam sem ter
reação nenhuma durante alguns segundos, e minha
mãe começou:
_Filha...Eu não tenho aids e
você tem, por que...Você não é minha
filha de sangue...
_é filha. Nós não
somos seus pais biológicos, somos seus pais adotivos.
Interrompeu meu pai. Sua mãe biológica morreu assim
que você nasceu...E seu pai meses antes.
_Mas isso não muda...Nós
te amamos mais que tudo...E você é nossa filha como
sempre foi. Começou minha mãe e me abraço mais
forte que antes, e o meu pai fez o mesmo.
_desculpa interromper, mas já
está na hora...Tá aqui o remédio dela.
Interrompeu Mary.
Meu pai pegou o remédio e me
deu, eu peguei e joguei fora.
_Isso não serviu pra minha
mãe, também não vai servir pra mim!
Minha mãe me acalmou me segurando firme e pedindo calma, a
voz dela bem suave me acalmou, e assim que isso aconteceu, ela
começou:
_A sua professora é uma mulher
mentirosa e de pouca fé, você não acredita em
milagre, minha mãe sempre foi muito religiosa e me contava
muitos contos de fadas, então respondi, com um pouco com
dúvida:
_não sei...
_como não sabe?Então como
é que uma bola gigante e pesada flutua no espaço?Como
é que nasceu o primeiro homem e a primeira mulher que deu
origem a todos nós?Qual a única resposta pra todas as
perguntas sem respostas sobre o mundo?
_o milagre.
Naquela noite eu fui dormir com meus pais. E acabei tomando o
remédio, e pensei muito sobre o "milagre".E cheguei a
conclusão que ele realmente existe, e se Deus não
provocar minha cura, deve ter algum motivo, afinal ele escreve
certo mesmo que seja por linhas tortas. Eu rezei o resto da noite
pedindo perdão pela minha pouca fé, e agradecendo,
pois, já, é um milagre eu estar aqui, e eu vou morrer
de todo jeito, hoje ou daqui a 50 anos, e esse foi meu
último pensamento antes de adormecer. No outro dia quando me
acordei minha mãe falou que eu não ia pra aula, e que
ia me matricular am outra escola, pois não me queria em
ambiente de pessoas com pouca fé e ignorante (a verdade era
que a diretora do colégio havia ligado naquela manhã
pra ela e dito que eu não poderia continuar lá, pois
ela seria a culpada se os outros alunos fossem contaminados).Minha
mãe tentou me matricular o resto do dia, mas quando ela
dizia que era pra uma criança portadora de HIV, não
tinha acordo. E assim passou uma semana assim, ela só
conseguiu quando teve que omitir essa parte. Ela me disse que
descobriu que ignorância e pouca fé também
não são contagiosas.
E foi assim que eu fui levando a vida com muita fé, e nada
mais me incomodava, na verdade tinha uma coisa sim a tal da
ignorância. Em umas das minhas épocas de melhoria fui
passar as férias na casa da minha tia, pois ela morava em um
condomínio fechado, perto da praia com muitas
crianças. Era mesmo um lugar bem legal...já no final
das férias a gente foi jogar rpg na pracinha que tinha
dentro do condomínio,e enquanto não estava no meu
turno se aproximou fiquei brincando com uma menininha fofa que tava
brincando perto da gente,só que quando a moça que
tava com ela(devia ser babá) ficou me olhando estranho e
logo arrumou uma desculpa pra ir embora com a menina,na hora eu
não entendi nada,mas no outro dia a vi conversando com a
empregada da casa de minha tia,e logo tudo fez sentido,a empregada
da minha tia tinha dito a babá da menina que eu tinha
aids,eu só não entendi como a mulher achou que a
menina ia se contaminar com tocando em mim. Mas até isso eu
tentei superar com um tempo, é que esse tipo de coisa me
tirava do sério.
No ano em que fiz onze anos eu quase não ia a escola, com
recaída o tempo todo cheguei até a fazer
quimioterapia, e acabei repetindo a 6º série, mas
não fique com pena de mim. Numa tarde eu tava cheia de tanto
tédio, sair do meu quarto pra andar um pouco pelo hospital,
no andar em que eu tava tinha uma vista linda, pra praia, o
céu todo limpo e o sol se pondo, e eu fiquei ali parada,
olhando o milagre que deus havia feito pra gente, e que a gente
transformou esse milagre em raridade. Quando ouvi uma voz
atrás de mim:
_lindo não é?
_é sim... É um
milagre.
_então você acredita em
milagres?
É claro você é um
milagre...E também é claro que eu não disse
isso, mas pensei seriamente. _Porém respondi
apenas:
_É claro...Você
não?
_Sim.
_O nascimento é a maior prova
que o milagre existe. Eu disse.
_Pois eu acho que a morte é um
maior ainda, e que depois dela seja tudo perfeito, um verdadeiro
milagre. Ele recitou.
_Linda teoria. Afirmei.
_Obrigado!Qual é seu
nome?
_Bárbara. E o seu?
_Bárbaro...
_Hã?
_Não... Seu nome é
bárbaro... É lindo!Como a dona.
Meu coração foi na boca e
voltou. Eu fiquei paralisada como uma estátua, e vermelha
como uma pimenta. Mas ele continuou...
_Meu nome é Bené... Na
verdade é Benedito... Bené é só
apelido.
Bem... Eu não podia falar o
mesmo... Ele realmente era lindo... Nunca tinha visto um careca
tão lindo. Ele tinha aids como eu, mas tinha passado por uma
quimioterapia mais violenta que a minha, mas mesmo assim continuava
lindo... Alto, dos olhos azuis, narizinho afilado, e sorriso
perfeito, mas seu nome era o oposto, mas mesmo assim eu tive a cara
de pau pra falar:
_O seu nome também
é bonito.
Ele riu como se adivinhasse meus
pensamentos, mas só falou:
_Sei...
Já estava quase na hora de minha
mãe chegar, e eu tinha que ir...
_tenho que ir...Tchau!
Ele pegou na minha mão, deu um
beijo na minha bochecha, e eu voltei ao meu quarto feliz da vida. E
eu só pensei nele a noite toda, nele e na ironia do destino,
pois na semana passada eu estava pensando... Se eu me apaixonasse
por um cara daqueles como tantos, que acham que o HIV pode ser
transmitido pelo beijo, por que não?Nem eu sabia a um tempo
atrás. Minha mãe quem me explicou:
_Que nunca havia acontecido nenhum caso
em que o HIV, tenha sido transmitido pela saliva, pois o que
contamina não é um vírus, mas em uma grande
quantidade deles. E na saliva o vírus HIV está em
pouca quantidade, então teria que ser um balde de saliva
para haver contágio.
Mas agora tudo estava resolvido eu estava apaixonada por um soro
positivo, e não havia problema, afinal ele já tinha
aids. No outro dia eu fui lá de novo, na mesma
hora,
e lá estava ele, e no outro, e
no outro, e no outro ..., e no outro, que começamos a
namorar...
E quando eu tinha alta, visitava-o
todos os dias e vice versa, e quando nós dois
tínhamos alta nos encontrávamos na praia, ou ele ia a
minha casa, ou eu ia a casa dele.
Ontem (um mês depois do meu aniversário de 15 anos)
fui visitar Bené, que havia piorado muito e voltado ao
hospital há uma semana atrás, mas só encontrei
seu corpo. Fiquei apavorada, e sai correndo aos prantos, e dei de
cara com minha mãe na porta, ela me segurou e me levou pra
casa, onde ela me consolou com um forte abraço, e meu pai
fez o mesmo, eu fechei a porta do quarto e chorei até
adormecer. E hoje quando acordei Bené estava ao meu lado,
ele pegou minha mão e me levou pra ver o “verdadeiro
milagre“.
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